Eu sempre achei que se existisse
amor, não existiria humilhação. Me enganei. Em partes, talvez. Porque quando a gente perde a razão por amor, a gente perde a noção do que é vergonha. Torpedos sem respostas, ligações não atendidas, procuras eternas sem encontros.
Encontros sem encontros. Porque a humilhação do amor tem disso, sabe? A gente se humilha sozinho. Doente. Vazio. Desassossegado. Como numa
música de Daniel, que diz assim:
'...me joguei no chão, na sala de estar. Tudo em minhas mãos, nada em seu olhar...'
E nas humilhações do amor, a gente escuta. A gente escuta tudo o que o outro diz, menos a razão. 'Você não presta pra mim por tal motivo', 'Você é muito isso', 'Você é muito aquilo'. Desculpas, desculpas e desculpas. Rodeios que o outro procura quando não sabe dizer a verdade. Acontece. Com mais gente do que a gente imagina. Aliás, acontece com a gente também.
Mas de todas as frases, uma marca mais. Não sei se pelo momento, pelo desgaste, pelo tempo, pela lua, uma sempre marca mais. Coisas como 'Eu não sirvo para você!'. E frases assim a gente tem que parar para escutar. Dói, mas liberta. Porque é na tentativa de entender tudo o que escutamos, analizando o que vivemos, que achamos a saída. E a saída está sempre na verdade dita. Ou na verdade escutada. E nunca uma frase faz tanto efeito quanto aquela em que a gente escuta sentindo. Nunca uma frase é tão justa quanto aquela que a gente escuta com a alma. Dói. Muito. Nunca disse que não doeria. Mas liberta.
E quando o tempo passa, e a gente descobre que realmente é o outro quem não sabe fazer a gente feliz, ele vem falar de humilhação. Vem falar dessa palavra que a gente tanto viveu, mas tinha vergonha de admitir. Dessa palavra que a gente sabia que existia, mas não entendia. Não, me desculpe, mas nem todo mundo sabe o que é humilhação. Não mesmo. E não é dessa vez que você vai saber. Se depender de mim, não é. É que gente de verdade, de coração aberto e alma pura, quando deixa de gostar, não quer o mal: a gente só não quer mais!